Uma pedra no caminho?

Pense num raspão. Esse vai ser um daqueles inesquecíveis.

Nesta sexta-feira (15), um asteroide com uns 50 metros de comprimento (metade de um campo de futebol) vai passar perto da Terra.

Muito perto!

A pedra em questão é o asteroide 2012 DA14. Ele foi descoberto em 23 de fevereiro de 2012, na Espanha, sete dias depois de ter passado a 2,6 milhões de km da Terra. Desde essa época, astrônomos ligados a projetos de monitoração de NEOs (sigla em inglês para objetos próximos da Terra) têm observado esse objeto, levantando dados mais precisos para estabelecer sua trajetória no espaço.

Eis que com os dados em mãos, qual não foi a surpresa ao verificar que esse asteroide iria quebrar um recorde perigoso: o asteroide que mais se aproximou da Terra já registrado!

De acordo com as últimas previsões, esse asteroide deve passar a 27.700 km acima da superfície da Terra! Isso é mais baixo que a órbita dos satélites de comunicação. Mas não há risco de que o DA14 atinja a Terra, mesmo passando tão próximo.

O 2012 DA14 tem um tamanho típico para um asteroide e deve ser composto, em grande parte, por rocha, sem grandes concentrações de gelo ou metal. Sua origem pode ser tanto um objeto desgarrado do cinturão de asteroides, ou mesmo ser um defunto cometário, ou seja, um cometa que tenha esgotado seus componentes voláteis, após tantas passagens pelo Sistema Solar.

Asteroides com essa dimensão passam perto da Terra a cada 40 anos em média e atingem a Terra a cada 1,2 mil anos. Um impacto com um asteroide deste tamanho não é capaz de provoca uma extinção em massa, como a dos dinossauros, mas pode levar a uma catástrofe local se cair sobre uma área densamente povoada – como uma cidade.

Satélites geoestacionários são posicionados em uma faixa acima do equador terrestre a uma altura de 36 mil km. Nessa posição privilegiada, um satélite executa uma órbita completa ao redor da Terra exatamente no mesmo tempo em que a Terra leva completar um dia. Dessa maneira, os satélites geoestacionários ficam sempre na mesma posição no céu o ano todo. Essa posição é estratégica para os satélites de comunicação e também para vários satélites meteorológicos. Seu potencial foi mostrado pela primeira vez pelo escritor de ficção científica Arthur C. Clarke e por isso é chamada de “Cinturão de Clarke”.

Mesmo passando a menos de 28 mil km, o asteroide também não vai colidir com nenhum satélite. O DA14 tem uma órbita inclinada e não deve cruzar o cinturão de satélites pelo seu plano e sim interceptá-lo, como se viesse “por baixo” e a menor distância até o satélite mais próximo não será menor que 1.950 km.

Mesmo depois dessa aproximação recorde, que deverá influir na rota e tornar suas passagens mais frequentes, o DA14 não deverá apresentar maiores riscos nos próximos anos. Até 2109, foram calculadas três situações possíveis de acontecer um impacto, com uma chance acumulada de um deles acontecer de 1 em 300 mil.

Com uma distância tão curta, será possível ver o DA14? Teoricamente sim. Ele atingirá magnitude 7,2 durante um curto período de tempo e poderia ser visto com instrumentos modestos, mas o grande problema será acompanhar seu movimento. Passando tão perto, ele se deslocará muito rápido, e cruzará uma extensão de céu equivalente ao diâmetro de duas Luas Cheias a cada minuto. Independentemente disso, o asteroide vem sendo monitorado já desde o dia 9 de fevereiro.

A máxima aproximação deverá ocorrer por volta das 17h25 (horário de Brasília) de modo que os melhores lugares para se tentar observar esse raspão devem ser o leste europeu, Ásia, Austrália e Indonésia, onde será madrugada no horário.

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O cometa do século?

qua, 06/02/13
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

No espaço profundo, além da órbita de Júpiter, uma luzinha tênue se move cada vez mais rápido em direção ao Sol. À primeira vista, esse pontinho de luz não é diferente das milhares de estrelas distantes e tão fracas quanto ele. Para revelar sua natureza e ganhar algum destaque, é preciso um grande telescópio. Só assim é possível notar que se trata de um cometa.

Mas, talvez, não apenas mais um cometa. Quem sabe esse pontinho de luz se revele “O” cometa.

O discreto pontinho de luz foi descoberto pelos astrônomos russos Vitali Neveski e Artyom Novichonok em setembro de 2012 e recebeu o nome de Ison. Não é nada muito poético, é simplesmente a sigla em inglês da Rede Internacional de Óptica Científica. Um pouco melhor que seu nome oficial C/2012 S1.

Imagens obtidas desde então mostram que o cometa está bem brilhante para sua distância. Já em fevereiro, o Ison cruzou a órbita de Júpiter e está a uns 790 milhões de km. Novas imagens obtidas agora pela sonda Deep Impact mostram que ele continua brilhando intensamente para esta distância.

A sonda Deep Impact é uma veterana estudiosa de cometas, e depois de observar os cometas Tempel 1 e Hartley 2, agora está de olho no Ison. Com imagens obtidas durante 36 horas entre os dias 17 e 18 de janeiro, muitos astrônomos estão especulando se este pequeno ponto de luz irá se transformar em um show de fim de ano.

A ideia atual é que essa é a primeira vez que o Ison vem das profundezas do Sistema Solar em direção ao Sol e deve passar muito próximo dele em meados de novembro. Para brilhar tanto a esta distância, esse cometa deve ser composto por muito gelo, que evapora ao menor aumento de temperatura, fazendo o seu núcleo brilhar. De fato, mesmo a esta distância gigantesca, o Ison já exibe uma cauda de quase 65 mil km de extensão.

As estimativas atuais dizem que o núcleo do Ison tem entre 1 e 10 km de diâmetro com muito gelo sujo, isto é, compostos voláteis como amônia, monóxido de carbono, dióxido de carbono e metano, por exemplo, todos congelados. De acordo com as previsões mais otimistas, quando esse cometa chegar próximo ao Sol, se tornará tão brilhante que poderá ser visto de dia.

Mas esse é um chute e tanto! Não do brilho que ele deve atingir, mas se o Ison sobrevive à passagem nas proximidades do Sol. Com uma composição tão volátil assim, a força gravitacional do Sol, bem como sua intensa radiação poderiam facilmente destruir o seu núcleo, fragmentando-o em milhares de pequenos pedaços. Isso aconteceu recentemente com o cometa Elenin, que prometia tanto quanto o Ison promete. A diferença é que o Elenin era bem menor.  Em contrapartida, o cometa Lovejoy passou pela atmosfera do Sol em 2011 e emergiu intacto para o deleite dos observadores. O Ison deve passar também pela atmosfera do Sol a meros 110 mil de km do que podemos chamar de sua “superfície” no dia 28 de novembro. A máxima aproximação da Terra deve ocorrer no dia 26 de dezembro, quando estará a 60 milhões de km de distância.

O negócio é aguardar pela primavera deste ano e torcer para que o Ison nos dê esse presente.

Atualização do Kepler
Depois do período de repouso, o telescópio espacial Kepler voltou a operar normalmente, como previsto. Nas próximas semanas, novos dados do comportamento da rota de inércia que enfrentava problemas vai mostrar como está o seu desempenho depois dessa estratégia.

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Telescópio Kepler em repouso

seg, 21/01/13
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

O ano de 2013 não começou bem para os caçadores de exoplanetas. O satélite CoRoT sofreu uma pane no sistema que faz a transmissão dos dados para a Terra e, mesmo com todos os demais sistemas funcionando bem, já foi dado como perdido. Agora chegam más notícias de outro satélite de busca por exoplanetas: o telescópio Kepler.

A grande maioria dos exoplanetas descobertos é composta por gigantes gasosos, objetos com as dimensões de Júpiter, por exemplo, porque são mais fáceis de se detectar. A missão CoRoT tinha como principal ambição detectar planetas do tipo terrestre, ou seja, planetas rochosos com dimensões compatíveis com as características físicas da Terra. Isso aconteceu em 2009.

A missão Kepler teve início em março de 2009 e seu principal objetivo era detectar exoplanetas rochosos na zona habitável de suas estrelas hospedeiras. A zona habitável de uma estrela é a região onde a quantidade de radiação emitida permite que a temperatura no planeta se mantenha em níveis para que a água exista em estado líquido. Ou seja, nem muito próximo da estrela para que seja quente demais e a água evapore, nem distante demais para que a água se congele. As dimensões dessa zona dependem muito do tipo da estrela.

A estratégia do Kepler é a mesma do CoRoT, ele fica “parado” observando a mesma região do céu durante meses, com uma câmera de grande campo de visada. A ideia é observar a variação de brilho sofrida pelas estrelas quando um planeta passa na sua frente, o famoso trânsito. Com as câmeras e a estratégia de observação, é possível detectar candidatos a planetas rochosos na zona de habitabilidade. E o Kepler já chegou a marca de 2.740 candidatos em 22 meses de operação! Esses casos são considerados candidatos até que sejam confirmados por outro método de medida. Confirmados até agora são 105.

Foi com base nos dados do Kepler que uma equipe de astrônomos do Centro de Astrofísica de Harvard mostrou que uma em cada seis estrelas possui um planeta do tamanho da Terra em uma órbita menor que a de Mercúrio, o que daria pelo menos 17 bilhões de planetas na Galáxia, conforme você leu aqui no G1.

O problema com Kepler é com o sistema de apontamento e estabilização de sua posição. Esse sistema faz uso de 3 rodas de inércia que efetuam o movimento do telescópio a partir da reação das rodas quando se muda a direção de seu eixo. Esse é um mecanismo puramente mecânico que não faz uso de disparos de retrofoguetes, economizando precioso combustível. Sem falar que é um método muito mais preciso.

Acontece que uma das rodas falhou em julho de 2012 e uma quarta roda, usada justamente para casos de emergência, foi colocada em operação para substituí-la. Mas no da 11 de janeiro, o time de engenheiros da NASA detectou problemas nessa roda, que estaria sofrendo um aumento da fricção no seu eixo de sustentação. Depois de completar as operações do dia, a fricção persistia, o que poderia levar a uma completa falha da quarta roda também.

Para tentar sanar o problema, os engenheiros “estacionaram” o satélite em uma posição que não necessita o uso das rodas e aumentaram sua temperatura interna. Nesta posição de repouso e com a temperatura maior, a esperança é que o lubrificante interno da roda diminua a viscosidade e se distribua melhor. Se isso der certo, o atrito do eixo da roda deve diminuir e ela voltará a ser operacional da maneira esperada. O período de repouso deve acabar hoje ou amanhã, se não houver nenhuma mudança de planos.

De acordo com o pessoal envolvido, essa estratégia já foi usada anteriormente com sucesso e, apesar de ser um problema grave, todos estão confiantes de que vai dar certo de novo. Tanto que, numa lista de notícias da missão, uma das astrônomas envolvidas convidou os colegas que têm observações programadas a relaxar e tomar um Muai Tai na praia…

Entretanto, extraoficialmente, o time de engenheiros já admitiu que essa é uma solução paliativa, que aumentará um pouco mais o tempo de vida da roda e que ela deve falhar definitivamente em breve.

Mais uma chance!

Quem perdeu as ocultações de Júpiter pela Lua em novembro e no Natal terá uma outra chance nessa madrugada. Hoje à noite, por volta das 02 da manhã (horário de Brasília) a Lua, já bem baixa no horizonte, deve ocultar Júpiter. Nem todo o país conseguirá ver essa ocultação, partes da região Norte e todo o Nordeste não estarão na faixa de visibilidade.

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Au revoir CoRoT!*

qua, 09/01/13
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

*Até logo CoRoT!

Dois mil e treze começa com más notícias para a busca de exoplanetas. A história é a seguinte.

A missão CoRoT, sigla em inglês para Convecção, Rotação e Trânsito Planetário (Corot é um pintor francês, a sigla foi formada para homenageá-lo) tem como objetivo observar a mesma região do céu durante um período bem longo. Dessas observações, as variações de brilho das estrelas são estudadas com o objetivo de se descobrir planetas — através do método de trânsito (quando o planeta passa defronte à estrela) –, além de estudar a rotação das estrelas e a pulsação delas, por meio de um telescópio óptico de pouco mais de 25 cm de diâmetro. Essa é uma missão francesa, mas com intensa participação brasileira.

O satélite CoRoT foi a primeira missão espacial dedicada a procurar exoplanetas e desde 2007 já encontrou 34 (todos confirmados posteriormente) e mais 5 outros que estão próximos de serem confirmados.

Mas o quê teria acontecido com o satélite?
O problema começou em 2009, quando o CoRoT deixou de enviar dados para a Terra. Um baita susto, mas todo o satélite foi construído com sistemas redundantes, ou seja, com sistemas duplicados para serem usados em caso de falha do sistema principal. Desde então ele vinha operando normalmente no sistema alternativo. Mas no dia 2 de novembro último, o sistema de transmissão de dados deixou de funcionar. A telemetria mostra que todos os outros sistemas estão funcionando perfeitamente, toda ordem vinda da Terra é processada, mas o CoRoT não responde. Os engenheiros sabem disso por que a temperatura interna dos circuitos aumenta todas as vezes que enviam algum comando.

O equipamento CoRoT, criado para detectar planetas alienígenas que são parecidos com a Terra

Depois de tentar todas as possibilidades, os engenheiros foram para a trivial reinicialização dos sistemas, o popular “reboot”. Mas nem assim o sistema respondeu. O que teria acontecido?

As falhas no sistema de transmissão de dados e seu backup aconteceram quando o satélite passava sobre uma região chamada Anomalia Magnética do Atlântico Sul. Nessa região, o cinturão de Van Allen, um cinturão de partículas carregadas que envolve a Terra, se aprofunda. Normalmente a 6-7 mil km de altura, nessa região do Atlântico Sul (mas que atinge boa parte do Brasil) o cinturão desce a quase 200 km, o que traz para baixo uma quantidade enorme de prótons altamente energéticos.

Essa anomalia é conhecida e muito temida pelos engenheiros de satélites, pois qualquer equipamento que tenha que atravessar essa região precisa ter uma blindagem muito mais robusta, como acontece com a Estação Espacial Internacional. Mesmo assim, a Nasa frequentemente reporta que notebooks modernos não resistem e acabam reinicializando sozinhos, ou mesmo pifando. Para se ter uma ideia da gravidade dessa exposição a essas partículas, o telescópio espacial Hubble não faz observações quando passa sobre essa região.

Ao que parece, a causa mais provável da falha foi uma sobrecarga ou mesmo um curto circuito provocado pelas correntes induzidas nos circuitos elétricos. Isso já aconteceu antes com outros experimentos que voaram sobre essa região. Malcon Fridlung, cientista da missão na Agência Espacial Europeia, disse que os engenheiros ainda procuram uma maneira de recuperar o satélite, mas que ele mesmo não acredita que dará certo.

Uma grande pena, pois a missão do CoRoT, que iria durar apenas 2 anos e meio, tinha sido estendida até novembro de 2012 devido ao seu sucesso. Poucos dias antes da falha, uma segunda extensão até 2016 havia sido aprovada. O CoRoT foi o telescópio a detectar o primeiro exoplaneta rochoso em 2009. O CoRoT-7b está a 470 anos luz de distância, é um planeta com massa cinco vezes maior que a da Terra e deve ter temperaturas tão altas quanto 3.500º C.

Se confirmadas as expectativas, será uma grande pena realmente, mas como se diz em francês “c’est la vie” (“é a vida”, na tradução literal).

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Feliz Ano Novo!

qui, 03/01/13
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

Mas, qual ano? A pergunta pode parecer estranha, mas na realidade existem várias definições para um ano. Todas, claro, baseadas no conceito de que se trata de um ciclo que se repete periodicamente, mas com várias definições a depender do uso.Por exemplo, o ano fiscal, que se baseia nas necessidades e obrigações fiscais estabelecidas pelo governo. No Brasil, ele começa em 1º de janeiro e termina em 31 de dezembro, mas em outros países essa definição pode ser diferente, como na Austrália onde o ano fiscal começa dia 1º de julho.

Existe outra definição para ano, baseada na sazonalidade de eventos. Nesse conceito, um ano é marcado pelo intervalo de tempo transcorrido entre dois eventos sazonais. Por exemplo, a primeira chuva de verão, a primeira nevasca de inverno ou até mesmo, a primeira partida de futebol de um campeonato. Dessa maneira, um ano pode começar em épocas bem diferentes.

O primeiro objetivo da astronomia foi o estudo da regularidade das posições dos astros, saber prever quando começariam as chuvas, o período seco, para saber das cheias dos rios e para planejar o plantio e a colheita. Em suma, a astronomia era uma ciência voltada a planejar calendários.

Por exemplo, no Egito antigo era usado o ano Sótico (ou Canicular) que tinha 360 dias e começava quando Sírius, a estrela mais brilhante da constelação do Cão Maior – e também do céu todo – nascia momentos antes do amanhecer. Mais ou menos um mês após o começo do ano, o rio Nilo iniciava seu período anual de cheias. Ao longo dos anos, os astrônomos egípcios notaram que havia uma defasagem entre o nascimento de Sírius e as cheias do Nilo e introduziram 5 dias nesse calendário. Com o passar dos anos, notaram também que a cada quatro anos precisavam introduzir um dia para compensar a diferença entre os eventos. Dessa maneira chegaram à conclusão de que o ano tinha 365 dias e 6 horas de duração.

Então, falando de astronomia, temos também outras definições para um ano. Aqui vão algumas delas:

Ano Juliano: definido como tendo exatamente 365,25 dias, ou 365 dias e 6 horas. É o ano usual, o qual estamos acostumados e que a cada 4 anos temos de adicionar um dia a mais para compensar a diferença de 6 horas em cada ano.

Ano sideral: é definido como o tempo necessário para a Terra completar uma órbita completa em torno do Sol, mas comparando as posições de um conjunto de estrelas “fixas” no céu. Em outras palavras, é o tempo necessário para que a posição de estrelas de referência volte a se repetir exatamente no céu. Isso dá 365 dias, 6 horas, 9 minutos e 9,76 segundos.

Ano tropical: é o intervalo de tempo entre a repetição da posição do Sol no seu caminho “sobre” as estrelas de fundo, ou seja, a eclíptica. O ano tropical é medido a partir do Equinócio Vernal, ou seja, baseia-se no ciclo de estações do ano e tem a duração de 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. Essa diferença de tempo entre o ano sideral e o tropical é explicada pelo movimento de precessão dos equinócios da Terra, um movimento que faz com que o eixo de rotação da Terra execute um movimento periódico em relação às estrelas de fundo. O calendário usual se baseia no ano tropical.

Ano Lunar: é o intervalo de tempo necessário para se observar 12 ciclos lunares completos, ou seja, observar o ciclo completo entre Lua Nova e Minguante por 12 vezes. Isso dá 354 dias, 22 horas e 12 segundos. Esse calendário é usado para se definir eventos importantes em algumas religiões.

Em todo caso, com a definição usual de calendário, feliz ano novo!

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Um presente de Natal!

seg, 24/12/12
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

No dia 28 de novembro, tivemos uma ocultação de Júpiter pela Lua, logo no começo da noite. Esse fenômeno foi visível em parte do Brasil, mas muita gente ficou sem acompanhar o espetáculo. Desta vez, vai ser diferente: o “show” deve ser visto no país inteiro e em boa parte da América do Sul.

Começando por volta das 20h30 (horário de Brasília) desta terça-feira (25) de Natal, a Lua mais uma vez deve encobrir Júpiter, tal qual em novembro. Como o horário é aproximado, convém começar a observar um pouco antes, tipo uns 10-15 minutos, para não perder o evento. Não vai ser difícil achar esse par no céu.

Rafael Defavari e Júlio Lobo/Observatório Municipal Jean Nicolini

O espetáculo deve durar por volta de 1h30, então por volta das 22h vai ser possível ver Júpiter saindo de trás da Lua. Não é preciso nenhum tipo de equipamento, mas uma pequena luneta ou um binóculo pode revelar os satélites galileanos de Júpiter, dando um toque a mais.

Então está marcado: na noite de Natal, um belo presente dos céus!

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O coelhinho da Páscoa surpreende

dom, 16/12/12
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

Você deve se lembrar da controvérsia sobre a classificação de Plutão. Desde sua descoberta, ele foi considerado o nono planeta do Sistema Solar, mas o achado de outros objetos com tamanhos similares pôs essa classificação em xeque. São os chamados Objetos Transnetunianos (TNOs na sigla em inglês), aqueles que orbitam o Sol, mas com uma distância média maior que a distância entre o Sol e Netuno.

Já são conhecidos mais de 200 desses objetos, sendo Éris o maior deles, seguido por Plutão e Makemake. Dá para perceber que não seria possível considerar Plutão como planeta e, ao mesmo tempo, classificar Éris como um objeto menor do Sistema Solar. Se a União Astronômica Internacional (IAU, em inglês) fosse usar o mesmo critério para classificar Plutão como planeta, teria de acomodar Éris e mais uns 200 outros objetos.

Bom, o final desta história todo mundo conhece: em 2006, a IAU decidiu criar a categoria de planeta anão, rebaixando Plutão e promovendo Ceres, até então um asteroide. Com essa nova classe, Éris e centenas de outros TNOs puderam ser acomodados em uma categoria mais apropriada.

Plutão e Éris são dois objetos congelados, de tamanhos quase idênticos, densidades comparáveis e superfícies com composições químicas similares. Entretanto, Plutão possui atmosfera e Éris não, e o motivo para isso deve ser a distância até o Sol: Plutão está mais perto, o que explicaria também a diferença da capacidade de refletir a luz do Sol, chamada “albedo”.

Makemake foi descoberto em 31 de março de 2005 por Mike Brown e seus colaboradores. Seu nome remete à deusa da fertilidade da Ilha de Páscoa, território no Pacífico que pertence ao Chile. Numa analogia bem liberal, Makemake representa o mesmo que o “coelhinho da Páscoa” e  foi escolhido justamente por remeter à data, que tinha acabado de acontecer. Além disso, batizar um objeto de coelhinho da Páscoa não ia colar com a IAU.

Makemake é também um mundo congelado, com um espectro muito parecido com o de Plutão e Éris. Sua distância é intermediária a esses dois planetas anões. Fora essas informações, muito pouco se sabia a respeito de Makemake, mas isso mudou muito, de uma tacada só.

Você leu aqui no G1 os resultados de uma pesquisa que envolveu um time grande de astrônomos, inclusive brasileiros. Esses pesquisadores utilizaram uma ocultação de Makemake para obter novos e intrigantes dados do objeto.

Em 23 de abril de 2011, Makemake passou na frente de uma estrela bem fraca e a ocultou. Ocultações são um método bastante eficiente para detectar atmosferas tênues e dar boas estimativas de tamanhos e albedos dos objetos. Esse tipo de acontecimento não é muito comum, mas o problema com eles é que são difíceis de prever com muita antecedência, já que os elementos das órbitas não são tão bem conhecidos ainda.

No caso de Makemake, uma ocultação dessas só pode ser prevista com alguns dias de antecedência e, tal como um eclipse, não é observada de toda a Terra. A ocultação se projeta sobre a superfície do nosso planeta em uma faixa, como uma sombra.

Foi assim que aconteceu no ano passado, usando um programa com as melhores estimativas da órbita de Makemake. Uma ocultação pôde ser prevista, e a faixa de onde ela seria visível se estenderia por sobre o Brasil, seguindo para o oeste e passando sobre o Chile. Assim que a ocultação foi confirmada, um alerta foi emitido e uma rede de 12 telescópios, a maioria no Chile, entrou em alerta.

A faixa de visibilidade dessa ocultação passava pelo Pico dos Dias, observatório brasileiro localizado em Brazópolis (MG) e, com um telefonema, ele passou a integrar a rede. Dos 12 telescópios, 7 conseguiram observar a ocultação. No Pico dos Dias, apenas o lendário telescópio Zeiss conseguiu dados para a campanha. Segundo uma lenda, esse telescópio fez parte de um pagamento de dívida da antiga Alemanha Oriental, que havia comprado café do Brasil e pagou com três telescópios parecidos.

Esse telescópio é um dos mais antigos em operação profissional no Brasil. Ele tem 60 cm de diâmetro e é inteiro manual, ou seja, para apontar para um alvo qualquer, nada de computadores. É preciso mover o telescópio empurrando-o até a posição calculada e, no momento certo, liga-se o movimento de acompanhamento para manter o alvo sempre no campo de visão da câmera.

Para registrar uma ocultação assim, uma sequência de imagens de curta duração precisa ser feita, para captar a passagem do objeto na frente da estrela. A estrela de fundo some por poucos segundos para retornar logo em seguida. Dependendo de como a luz da estrela “some” e depois “reaparece”, é possível observar a presença ou não de atmosfera. Se a estrela sumir subitamente, significa que não há atmosfera (pelo menos, atmosfera com alguma densidade), e a luz é barrada diretamente pela superfície, como foi com Éris. Já se a queda e o retorno da luz da estrela se derem de modo gradual, mesmo que rápido, significa que há atmosfera para promover uma absorção gradual da luz. Foi assim com Plutão.

Esperava-se para Makemake características semelhantes às de Plutão, uma vez que ele está mais próximo que Éris, onde, neste caso, a atmosfera teria se congelado e precipitado sob a forma de neve sobre a superfície. Isso poderia, também, explicar a diferença de albedos. Mas Makemake não mostrou isso: o brilho da estrela oculta caiu abruptamente no início e retornou também abruptamente, indicando uma atmosfera extremamente rarefeita, se é que existe.

Uma hipótese é de que a atmosfera tenha congelado e precipitado em pontos separados da superfície do planeta anão. Isso ajudaria a explicar o albedo de Makemake, que mais se assemelha a gelo sujo, ou seja, alguma coisa intermediária entre o brilho do gelo e de uma superfície rochosa mais escura. Ainda assim, é maior que o albedo de Plutão, mas menor do que o de Éris.

Outro resultado interessante, decorrente do fato de haver telescópios em diferentes latitudes e longitudes do planeta, foi a descoberta de que Makemake tem um formato mais achatado do que se imaginava. Em um eixo, ele mede 1.430 km e, no outro, 1.502 km em formato elipsoidal.

Mais ocultações são esperadas de Makemake e dos outros TNOs. Vale lembrar que, no caso de Plutão, o problema é mais grave. Com uma sequência de ocultações ocorridas nos últimos anos, ficou claro que a medida do seu semieixo maior estava errada por milhares de quilômetros. Não seria um caso grave se não houvesse uma nave a caminho que precisa saber com precisão onde encontrar seu alvo no espaço.

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Os Geminídeos estão chegando

qui, 13/12/12
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

Durante seu percurso em torno do Sol, a Terra atravessa diversas trilhas de destroços deixados por cometas, vagando em suas órbitas em torno do Sol também. Todas as vezes que isso acontece, temos uma chuva de meteoros, ou seja, a Terra vai “varrendo” pequenos pedaços deixados pelos cometas e eles são destruídos com o atrito ao entrarem na atmosfera. É bem verdade que alguns deles sobrevivem e chegam à superfície, mas a grande maioria se queima, dando origem às populares estrelas cadentes.

Agora, entre os dias 13 e 14 de dezembro, teremos o máximo da chuva conhecida como Geminídeos. Essa chuva está associada, não a um cometa comum (que são quase todos verdadeiras bolas de gelo sujo), mas sim a um estranho objeto, chamado 3200 Phaeton.

Esse objeto foi descoberto em 1983 pelo satélite infravermelho Iras, da Nasa, que fez história produzindo o primeiro mapa do céu inteiro em comprimentos de onda do infravermelho. Essa faixa do espectro, estudada pelo Iras é absorvida principalmente pelo vapor d’água e gás carbônico da nossa atmosfera. Assim que ele foi descoberto e os elementos de sua órbita foram obtidos, ficou claro que seria o Phaeton a origem dos Geminídeos. Mas, tudo nesse objeto sugere (ao menos até agora) que ele é um asteroide e não um cometa!

Na verdade, 3200 Phaeton mais se parece um “naco” de 5 km que se desprendeu do asteroide Pallas de 544 km de tamanho. Se realmente o Phaeton é “só” um pedaço do Pallas, os destroços capturados pela Terra que evaporam em nossa atmosfera são pedacinhos de rochas que se desprenderam quando os dois se separaram. Ou seja, os Geminídeos têm como origem um asteroide e não um cometa. A estranheza nisso vem do fato de que é muito mais fácil que pedaços de gelo se despedacem do que pedaços de rochas. Basta que a temperatura suba algumas dezenas de graus para o gelo se evaporar e nesse processo, fragmentar o núcleo. Em princípio, asteroides não deveriam originar chuva de meteoros.

Uma outra possibilidade é que 3200 Phaeton poderia ser um cometa rochoso, uma classificação proposta recentemente para descrever asteroides que se aproximam muito do Sol e que produzem destroços por causa do aquecimento intenso de sua superfície.

Para verificar essa hipótese, um time de astrônomos liderado por David Jewitt e Jing Li, da Nasa, usaram os satélites Stereo, de estudo do Sol, para observar uma passagem do Phaeton nas proximidades do Sol, a apenas 21 milhões de km dele. Os dados dos satélites mostraram que o Phaeton dobrou de brilho durante essa passagem, o que poderia indicar uma fragmentação das camadas mais externas do asteroide. Com a dilatação térmica e a destruição de minerais hidratados, haveria uma forte ejeção de material particulado, desde poeira a pedaços maiores de rochas. Os dados do Stereo mostram que esse asteroide é mesmo um cometa rochoso.

Entretanto, segundo estimativas da equipe que estudou o comportamento desse objeto, a quantidade de material ejetado não seria suficiente para manter o reservatório de meteoroides que originam uma das mais intensas chuvas de meteoros. Nesse evento, apenas 0,01% da massa total de destroços foi adicionada ao reservatório. Muito pouco. Uma hipótese é que no passado, esse processo todo de fragmentação e ejeção de material teria sido muito mais eficiente.

À parte essa discussão toda, a Terra já está cruzando a trilha do Phaeton e observadores atentos poderão notar um aumento no número de meteoros riscando o céu. Na madrugada do dia 13 para 14 de dezembro, essa atividade deverá atingir o seu máximo, quando a taxa prevista de ocorrências deverá atingir 100 meteoros por hora.

Mas é assim: essa é uma taxa teórica, para observadores em ambientes totalmente escuros, que tenham o radiante no zênite, ou seja, sobre suas cabeças. Quem observa o máximo de uma chuva de meteoros, pode notar que todos eles parecem se originar de um mesmo ponto do céu, esse é o radiante de uma chuva de meteoros que recebe o nome da constelação em que o radiante se encontra. Nesse caso, como o radiante está em Gêmeos, a chuva é chamada de Geminídeos.

Para observar uma chuva de meteoros não é preciso nenhum equipamento especial, no máximo uma cadeira de praia para evitar um torcicolo no dia seguinte. Procure um local escuro (sobretudo seguro) e comece a olhar por volta das 22h30 na direção nordeste, pode ser hoje mesmo. Procure pelas Três Marias (que compõem o Cinturão de Órion) e desça na vertical na direção do horizonte (no lado direito da imagem abaixo). Não é preciso localizar o ponto exato, apenas olhar na direção da constelação. Os meteoros devem cruzar o céu todo, mas olhando na direção de onde eles vêm fica mais fácil.

O melhor está previsto para a alta madrugada, quase o nascer do dia 14, mas assim como já podemos ver mais meteoros que o habitual antes dessa data, poderemos ver alguma coisa assim também depois dela. Como a Lua estará na fase nova, podemos esperar (em locais escuros) algo como um ou dois meteoros a cada dois minutos.

Então é esperar por tempo bom e madrugar!

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Uma pequena passagem de Niemeyer

qui, 06/12/12
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

Niemeyer em um blog de astronomia?

Pois é. Parece que não tem muito a ver, mas queria registrar esse fato, nesse momento especial.

Nasci e cresci em Brasília, rodeado pelas obras criadas por Niemeyer. Desde sempre admiro suas obras.

Em 1986 eu ajudei a fundar o Clube de Astronomia de Brasíla (CAsB), que ainda existe e é muito atuante. Naquela época, estávamos às voltas com o projeto e a construção de um observatório na Capital Federal. Tínhamos uns dois projetos arquitetônicos, mas um colega nosso apareceu com uma conversa.

Esse colega disse que tinha um contato no escritório de arquitetura de Oscar Niemeyer. Sem maiores pretensões, esse colega do CAsB comentou que estávamos à procura de um projeto para construirmos, algum dia, um observatório em Brasília. Eu mesmo nem dei bola ao assunto, imagina só, conseguir um projeto de Niemeyer, assim! E assim ficou, o tempo passou e nunca mais ouvi a respeito.

Acontece que, muito tempo depois (nem morava mais em Brasília) fiquei sabendo que a história tinha chegado aos ouvidos de Niemeyer! E mais ainda, ele tinha gostado da ideia, tanto que faria o projeto. E de graça!

Quem teve a oportunidade de ver o céu de Brasília sabe que ele é fantástico. Tom Jobim, impressionado por essa beleza toda afirmou que “O mar de vocês é o céu”. Talvez por esse fato, Niemeyer tenha se empolgado com a ideia do observatório.

A realidade é que a ideia não se consumou e hoje, ainda sem um observatório à altura da cidade que projetou, rendemos homenagens ao grande arquiteto e entusiasta de um observatório no Planalto Central, o grande Oscar Niemeyer.

Saudades!

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Curiosity: muito barulho por nada. Ou não!

ter, 04/12/12
por Cássio Barbosa |
categoria Observatório

Finalmente, a agência espacial americana (Nasa) fez sua conferência de imprensa em San Francisco para anunciar a tão esperada descoberta que entraria para os livros de história, segundo o cientista principal da missão do robô Curiosity em Marte, John Grotzinger. Como eu já havia antecipado no post anterior, ninguém esperava que fosse anunciada a descoberta de vida, pois os instrumentos do jipe não permitem isso. Transmitida ao vivo pela internet, os principais pontos foram os seguintes:

O Curiosity escavou com seu braço robótico uma parte relativamente plana do fundo da Cratera Gale, onde está fazendo seus estudos. Esse material, na verdade, são pequenos montes de areia trazidos pelo vento. As amostras foram depositadas no jipe e analisadas por três dos seus dez instrumentos: o Analisador de Amostras de Marte (SAM), o instrumento de Mineralogia e Química (CheMin) e a câmera Mahli. As amostras foram chacoalhadas, para separar as pedras, e depois aquecidas. E aí começaram as análises.

O solo aquecido liberou vapor d’água, dióxido de carbono, oxigênio e dióxido de enxofre, nessa ordem de abundância. Tudo isso já era conhecido desde a década de 1970, em resultados similares obtidos pelas sondas vikings e, mais recentemente, pela sonda Phoenix Mars Lander. Inclusive as amostras de solo eram quase iguais, apesar de estarem a milhares de quilômetros de distância umas das outras.

A liberação de vapor d’água não significa que a amostra estava molhada, mas talvez apenas úmida, já que as moléculas de água se aderem muito facilmente aos grãos de areia. Entretanto, a quantidade liberada foi bem maior que a esperada.

Além desses gases, o módulo SAM identificou um composto de cloro, um perclorato, que também já havia sido detectado pela Phoenix em amostras de solo polar marciano. Naquela época, esse perclorato foi considerado o culpado de não se ter achado nenhum composto orgânico. Segundo as explicações da época, ele poderia ter destruído qualquer molécula orgânica.

Ma,s além disso, o SAM detectou compostos de metano clorado, ou seja, um composto orgânico. Esse deve ter sido o motivo de tanta empolgação de Grotzinger, ao afirmar que os dados que estavam chegando naquele momento da entrevista entrariam para a história.

Mas por que isso ainda não pode ser considerado histórico? Por um motivo simples: o cloro que compõe esse material é de origem marciana, certamente, mas será que o carbono também?

Já aconteceu antes, a detecção de metano em Marte – o que seria um grande passo na afirmação de que haveria vida no planeta vermelho – teve de ser revista. A amostra de atmosfera estava contaminada com ar da base de lançamento, na Flórida. O mesmo parece ter acontecido agora, segundo a equipe do Curiosity. Mas nem mesmo a equipe parece estar certa disso…

É que, analisando agora as razões isotópicas dos gases liberados das amostras, ou seja, a razão entre espécies químicas iguais, mas com massa molecular diferente, a conclusão que se chegou é de que o vapor d’água, o dióxido de carbono e a razão entre hidrogênio e deutério são maiores que as encontradas na Terra, um grande indicativo de que de não houve contaminação. Mas grandes descobertas exigem grandes confirmações, como diria o astrônomo Carl Sagan.

O fato é que, por falta de atmosfera, a superfície de Marte sofre com o bombardeio de raios cósmicos de alta energia, raios X e ultravioleta. Tudo isso pode modificar a composição química do solo, fazendo com que substâncias mais voláteis simplesmente se desprendam e evaporem em direção ao espaço. Então simplesmente não se pode descartar que a radiação solar esteja em ação nesse caso. Futuramente, uma missão que possa coletar amostras da atmosfera superior de Marte poderá analisar a presença dessas substâncias voláteis e confirmar essa hipótese. Enquanto isso, podemos dizer que detectamos algo, mas ainda não sabemos de onde vem.

Outro aspecto interessante da conferência da Nasa foi uma pergunta feita por um repórter da plateia. Ele quis saber como deixaram uma simples suspeita causar um buchicho tão forte no mundo inteiro.

Meio que no estilo “veja bem”, Grotzinger disse que era um cientista e que se empolga muito quando vê uma missão científica da qual ele participa dando resultados. O problema foi ter se empolgado justamente na frente de um repórter quando os resultados estavam chegando. Grotzinger falou também que não tinha culpa de que o mundo todo esteja tão conectado e ávido por novidades de Marte, a ponto de repercutir tanto qualquer notícia.

Bom, eu concordo em parte. Anunciar resultados bombásticos exige muito cuidado. E, para divulgar qualquer resultado vindo de Marte, todo cuidado é pouco!

No final das contas, foi um grande teste para os instrumentos do Curiosity. Mesmo que tenha detectado compostos terrestres, isso demonstra a grande sensibilidade desses equipamentos. A ideia do estudo era, na verdade, testar esses módulos, pois a amostra usada nem era da própria cratera, mas trazida pelo vento. Nesses aspectos, a Curiosity passou com louvor e podemos esperar boas surpresas no futuro. Mas agora, Grotzinger, segura a onda! Mais cuidado das próximas vezes!

fonte: G1/OBSERVATÓRIO

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